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A criança que você foi ainda opina no seu armário e estilo pessoal

Foto do escritor: Fabiola Salomão Alonso
Fabiola Salomão Alonso
12 de out.
3 min de leitura

Fabiola Salomão criança com estilo

Hoje é Dia das Crianças, e em vez de falar das crianças de hoje, quero falar da criança que você foi.

Pense em uma roupa da sua infância da qual você se lembra com nitidez. Talvez o vestido que você não aceitava tirar, a meia-calça que coçava, o uniforme ou a roupa de festa que alguém escolhia por você. Não precisa ter sido uma peça especial, basta ter ficado na memória.

Se ela chegou até você com cor, textura e até cheiro, não foi por acaso. Na infância, a gente veste o que escolhem para nós, observa o que as pessoas ao redor vestem e aprende, sem que ninguém explique, o que é bonito, o que é adequado e o que “não combina com o seu tipo”.

A psicologia explica parte desse processo. Em 1968, o psicólogo Robert Zajonc publicou experimentos que mostraram o efeito da mera exposição: tendemos a gostar mais do que já vimos muitas vezes, simplesmente porque nos é familiar. Zajonc usou palavras sem sentido, ideogramas e fotos de rostos, e não roupas, mas o efeito foi confirmado por uma meta-análise de 1989 e é um dos mais estudados da psicologia social.

Isso vale para o seu gosto: as cores da casa em que você cresceu, as estampas das cortinas, os tecidos da sua avó e as roupas de quem você admirava. Muito do que hoje nos parece bonito é, em parte, apenas familiar.

Há ainda uma segunda peça nesse quebra-cabeça. O psicólogo Dan McAdams chama de identidade narrativa a história que cada pessoa conta sobre a própria vida: de onde veio, o que viveu e quem se tornou. As pesquisas de Tilmann Habermas e Susan Bluck indicam que essa história se organiza principalmente na adolescência e no início da vida adulta. A infância, portanto, não escreve a narrativa sozinha, mas fornece a matéria-prima: as cenas, os lugares, as pessoas e as roupas que escolhemos contar.

Na prática, o armário reúne dois tipos de peça. Umas são escolhas suas, de hoje. Outras são ecos: você usa por ser o que “se usava” na sua casa, evita porque alguém um dia disse que não ficava bem em você ou compra de novo o mesmo tipo de peça por hábito. Nenhum dos dois tipos é errado, mas é bom saber qual é qual. E se alguma dessas lembranças for difícil, tudo bem, começamos pelo que for confortável.

É por isso que o estilo pessoal vai além da tendência. Ele reúne tudo de que você gosta e tudo o que você é, e isso tem uma origem. Na Consultoria de Estilo, descobrimos juntas as preferências estéticas que formam o seu estilo, o que inclui entender de onde elas vêm. Algumas serão confirmadas (“é isso mesmo, eu amo”) e outras serão revistas. O resultado é um estilo que pertence a quem você é hoje, sem desrespeitar a criança que você foi. Fontes Zajonc, R. B. (1968). Attitudinal effects of mere exposure. Journal of Personality and Social Psychology, 9(2, Pt. 2), 1–27Bornstein, R. F. (1989). Exposure and affect: overview and meta-analysis of research, 1968–1987. Psychological Bulletin, 106(2), 265–289.

McAdams, D. P. (2001). The psychology of life stories. Review of General Psychology, 5(2), 100–122.

Habermas, T. e Bluck, S. (2000). Getting a life: the emergence of the life story in adolescence. Psychological Bulletin, 126(5), 748–769.

Qual é a roupa mais marcante da sua infância e o que ela te ensinou sobre o que é bonito?

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